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Patrimônio Histórico

Bárbara de Alencar

Publicado: Terça, 10 de Janeiro de 2017, 14h08 | Última atualização em Terça, 10 de Janeiro de 2017, 14h08 | Acessos: 1326

Rompendo com os tabus da época, foi uma das primeiras mulheres a participar da política com a finalidade de participar dos movimentos pela independência do Brasil

A heroína republicana nasceu na cidade de Exu, interior de Pernambuco, em 11 de fevereiro de 1760. Adolescente veio para a Vila do Crato, no Ceará, e casou-se com o comerciante português José Gonçalves dos Santos, tendo quatro filhos: João Carlos José dos Santos; Joaquina Maria de São José; Tristão Gonçalves Pereira de Alencar e José Martiniano de Alencar. Este último é o pai do escritor José de Alencar.

Bárbara de Alencar e seus filhos abraçaram os ideais das lutas levadas a cabo pela aristocracia agrária na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador de 1824, que tinha como objetivo a libertação do jugo português e a instituição de um sistema republicano de governo. Dentre as causas do movimento destacam-se a séria crise econômica regional, o absolutismo monárquico e a influência das ideias iluministas da Revolução Francesa.

Em 29 de abril de 1817, por determinação do Governo Revolucionário de Pernambuco, a família Alencar recebeu a incumbência de liderar o movimento para libertar o Ceará da dominação portuguesa. A 3 de maio, o Diácono José Martiniano de Alencar proclamou a independência e a República na Igreja da Matriz do Crato. Em consequência desse ato, Bárbara e outros revolucionários, dentre eles seus filhos José Martiniano de Alencar e Tristão Gonçalves, foram perseguidos pelas tropas legais, ela refugiou-se na Paraíba, onde foi presa por ordem do então governador da Capitania do Ceará, Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire, Visconde de Lançada. Foi enviada para Icó-CE e depois conduzidos para a capital. Segundo a oralidade popular teria sido recolhida em um cubículo na Fortaleza de N. S. da Assunção, sem o consolo de ver os filhos.

Bárbara,posteriormente, foi levada ao Recife e, em seguida, para prisão na Bahia, onde permaneceram presos até 1820. Libertada três anos depois, veio a falecer em 28 de agosto de 1823, na fazenda Touro, de sua propriedade no Piauí.

A odisseia de Bárbara de Alencar, a guerreira, a idealista e líder da revolução de 1817 na cidade do Crato, pelo exemplo de patriotismo e valentia nos movimentos libertários que anteciparam a independência do Brasil, a eleva ao mais alto panteão da glória nacional, tendo seu nome sido proposto para integrar o Livro dos Heróis da Pátria. Ela é avó do renomado escritor cearense José de Alencar (Projeto de Lei da Câmara Nº 75, de 2012, em tramitação no Congresso Nacional).

 

REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA E BÁRBARA DE ALENCAR

 

1. A Revolta Pernambucana (Causas do Conflito)

O movimento deflagrado em Pernambuco no ano de 1817 coincidiu com o período da expansão dos ideais liberais no mundo ocidental. Estas idéias se difundiram também em várias províncias brasileiras, circulando clandestinamente em ambientes onde se discutiam assuntos relativos à política e planos para a implantação de um regime republicano. Falar contra a monarquia e contra o Governador Régio Caetano Pinto de Miranda Montenegro (1804-1817) era uma prática comum em certos círculos pernambucanos nas primeiras décadas do século XIX.

Apesar de ser debatida por pequenos grupos de letrados, a própria noção de independência já existia bem antes da revolução, ganhando mais força após sua repressão.

Quando o ouvidor da Comarca do Sertão tomou conhecimento das reuniões dos insurgentes, apressou-se em denunciá-las ao governador. Este, depois de ouvir outras pessoas que confirmaram a informação, ordenou a captura dos líderes do movimento. Por ocasião da prisão de alguns militares apontados como participantes da conspiração houve pancadaria e mortes, precipitando a rebelião. No Forte das Cinco Pontas, um brigadeiro português foi morto pelo capitão José de Barros Lima, o Leão Coroado, no momento de prender seus comandados.

Era o dia 6 de março de 1817, e a revolução ganhava as ruas. O governador, ouvindo os tiros e temendo pela própria sorte, fugiu do palácio e pediu abrigo no Forte do Brum. Com a divulgação da notícia da vitória dos rebeldes, muita gente saiu às ruas e se concentrou na Praça do Erário, na esperança de participar da escolha do governo. Nesse momento, Domingos José Martins entrou no edifício do Erário com a intenção de organizar o eleitorado que iria escolher a nova administração. Em seguida, por meio de um proclama que percorreu as ruas recifenses, foram anunciados os nomes dos membros do governo provisório. Esse era composto por uma junta, inspirada no diretório francês de 1795, formada por cinco pessoas, todas representando a classe dominante

Os poderes do governo estavam regulamentados por uma lei orgânica, considerada de autoria de frei Caneca, inspirada na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A palavra “patriota” foi bastante utilizada em Pernambuco em 1817 e se tornou uma espécie de indicador de uma identidade regional. A “pátria” dos revolucionários recifenses não era o Brasil, mas Pernambuco. Os patriotas, além de expressarem o rompimento com a monarquia, defendiam a república contra os desmandos do “despotismo” do Antigo Regime, que esvaziava os cofres públicos e os bolsos dos pernambucanos.

As diversas proclamações do governo provisório procuravam apagar da lembrança o passado colonial e as insígnias da realeza portuguesa. Imediatamente foi criada uma bandeira para a república, apresentada à população em ato político e religioso ocorrido no Campo do Erário (hoje Praça da República) no dia 21 de março. Os insurgentes explicaram à população que não mais se reconhecia como soberano o rei de Portugal. Ao se tentar defender a forma de governo republicano, imitava-se os Estados Unidos da América.

Na tentativa de buscar o apoio da região, vários emissários foram enviados às províncias vizinhas. Na Paraíba, a revolução começou em Itabaiana, sob o comando do Cap Manoel Clemente Cavalcanti, que marchou para a capital. No Rio Grande do Norte, a bandeira revolucionária seria içada pelo senhor de engenho André de Albuquerque Maranhão, que partiu de Cunhaú e chegou à cidade de Natal, onde organizou uma junta de governo. Para o Ceará foi enviado o seminarista José Martiniano de Alencar, futuro pai do romancista José de Alencar: ali chegando, foi preso, ficando impossibilitado de continuar sua missão. Para a Bahia enviaram o padre José Inácio de Abreu e Lima, vulgo padre Roma, que ao desembarcar também foi preso.

Quanto aos motivos que levaram as pessoas a se engajar no movimento revolucionário, eles eram variados. Em vista da instabilidade econômica, a província pernambucana continuava sendo muito explorada pela Coroa. O pagamento de altos impostos deixava os proprietários de terras e de escravos insatisfeitos. Além dos gastos com o fisco, esses homens se viam endividados com os comerciantes portugueses, que, na prática, controlavam o comércio da província. Diante do estado de insatisfação, certo número desses senhores se viu atraído pelas ideias liberais, que defendiam o livre-comércio e a extinção do monopólio. Muitos deles aderiram ao movimento pensando que, com a mudança de governo, seus interesses seriam mantidos; outros abraçaram a revolução por convicção ideológica e uma parte da população extravasava nela tensões não claramente definidas.

Entretanto, o movimento esbarrou em algumas contradições que caracterizavam o Brasil naquele momento. Existia um conflito entre portugueses e brasileiros, o que determinou o caráter separatista do movimento, mas, uma vez estourada a revolução, o governo da república optou pela manutenção da escravidão, o que se tornou a mancha de um governo que se dizia liberal e a principal contradição da insurreição. Aliás, o fim da situação de Colônia junto com a manutenção da ordem escravista era o desejo não só das elites agrárias nordestinas, como também das de todo o país.

Na Bahia, tão logo o governador, o conde dos Arcos, tomou conhecimento do que se passava na província de Pernambuco, passou a organizar a repressão, sem esperar pelas ordens do monarca. Ainda no dia 16 de abril de 1817 era possível avistar na barra do horizonte um brigue e duas corvetas vindas da Bahia para dar início ao bloqueio do Recife. No fim daquele mês, essa esquadra se juntou a uma grande fragata vinda do Rio. A comoção e o pavor tomaram conta dos recifenses. Pensou-se na possibilidade de resistir à luta a partir do interior, segundo o plano do padre João Ribeiro. O insurgente Martins gritava para quem quisesse ouvir que “antes de deixar o Recife, far-se-ia dele um montão de cinzas”.

Bombardeado o Recife, a revolução terminou no dia 20 de maio. No intuito de assegurar a normalidade do lugar, o capitão português e chefe da Armada Real Rodrigo Lobo, comandante do bloqueio de Pernambuco, que assumira interinamente o comando da província, mandou abrir as portas do teatro “para representar uma peça de circunstância”.

O governo revolucionário, percebendo sua derrota e a impossibilidade de fugir para o interior, se dissolveu, entregando a governança ao coronel Domingos Teotônio Jorge, como ditador, que posteriormente dispensaria as tropas revolucionárias e mandaria entregar aos vencedores os cofres do Erário. O padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro se suicidou, mas teve seu cadáver exumado e parte do corpo exposto em praça pública. Domingos José Martins, José Luís de Mendonça e o padre Miguelinho, feitos prisioneiros nos cárceres baianos, foram condenados à morte por uma corte presidida pelo conde dos Arcos. Em Pernambuco foram executados Domingos Teotônio Jorge, José de Barros Lima, o tenente Antônio Henriques Rabelo e o padre Pedro de Sousa Tenório. Os enforcamentos foram realizados com grande formalismo, a fim de chamar a atenção da população. Após o enforcamento, o corpo do réu era esquartejado e sua cabeça e suas mãos eram colocadas em locais visíveis, para servir de exemplo.

Em 29 de junho, desembarcava no Recife, vindo do Rio de Janeiro, o novo governador e capitão-general Luís do Rego Barreto (1817-1821), que tomou posse do governo no dia 1º de julho. Com ele chegaram tropas cuja finalidade era servir de escudo ao capitão-general. Uma das primeiras medidas de seu governo foi instalar uma comissão militar, que condenou e matou vários presos. Em agosto foi criado um tribunal da alçada.

2. Prisão de Bárbara de Alencar

D. Bárbara e mais 22 insurretos participaram da Revolta Pernambucana no Ceará, na cidade do Crato.

Ela e outros, dentre eles seus filhos José Martiniano de Alencar e Tristão Gonçalves, foram presos e conduzidos para a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção por Pinto Madeira. Bárbara é recolhida só, em um outro cubículo, com menos martírio, mas sem o consolo de ver os filhos. Algum tempo depois, foram enviados à Bahia, onde permaneceram presos até 1820.

A sua permanecia na prisão é questionada por alguns historiadores, que negam a sua prisão no túnel da Fortaleza, alegando ser ela mulher de posses e amiga de homens influentes do Estado. Como não há nenhum registro histórico, e a certeza histórica se faz com documentação, a sua prisão no túnel será sempre uma suposta prisão atribuída a oralidade popular.

 

 

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